Crônica: Um ciclo de mulher

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Quando em fase embrionária descobriram da sua existência, houve um misto de receio, alegria e expectativa: se daria tudo certo e estava tudo bem; qualquer coisa teria menor importância naquele momento; a partir d’ali, todas as atenções seriam para ela na esperança de que tudo ocorresse da melhor maneira possível.

Na verdade, nem se sabia quem viria, mas já iniciavam o amar e as especulações sobre nome e sexo. Era menina. Pronto. Uma vez descoberto o segredo todos os preparativos para a sua chegada. E cada qual dos que sabiam sobre sua vinda vibrava para que fosse em segurança, sem problemas, que fosse sã e saudável… mas se não fosse, pois, a vida tem dessas surpresas, talvez fosse ainda mais amada e bem cuidada.

Todo os detalhes pensados: roupas, pintura do quarto, berço, banheira, lacinhos e outros mimos típicos do universo feminino. Que beleza toda aquela empolgação para ver o seu rostinho e as primeiras lágrimas saltarem aos olhos dos mais sensíveis e próximos. Emoção inexplicável. Cada contato, ainda guardadinha no ventre materno era algo, embora as vezes doloroso, a afetividade em efervescência, que só crescia.

Enfim, chegou o dia da insegurança. Iria sair do casulo corpóreo para a vida em seu dinamismo, onde o tempo flui sem nos esperar. Do êxtase do primeiro contato, até a primeira amamentação, a separação inicial. Então, o desejo de estar perto, sempre: cuidar, educar, orientar, direcionar, prestigiar… são tantos planos, que somente se concretizam, verdadeiramente se internalizam, pelo exemplo.

Bem cuidada, bem vestida, se desenvolve a menina tão rapidamente, que quando se vê já está independente. É que, reforço: o tempo não nos espera. As brigas na escola, as teimosias em casa, as diversões em ambas, iam forjando sua personalidade, sem que se percebesse. Da infância para adolescência foi tão rápido que quando se viu, já não era mais um ser indefeso precisando de cuidado e carinho, mas uma mulher em formação, precisando de liberdade, respeito, atenção, cuidado e carinho.

Apesar de toda dependência, já despontava a ânsia de ser: independente, criativa, diferente, única. Mudanças orgânicas, cerebrais, mentais, hormonais, morais, tudo era de uma vez só e parecia complicado demais. Por isso, uma pitada de rebeldia, um tanto de indecisão, um pouco de medo, um bocado de dúvidas, mas muito de força, o suficiente de equilíbrio. A vida escolar, os pequenos deveres, o ciclo de amigos, tudo em ebulição. Mas não estava só, nunca esteve, embora as vezes quisesse isso, sabia que não estaria sozinha nunca.

Veio o primeiro namora e a partir de então, a vida afetiva seria algo mais para administrar. Por que seria assim, agora: responsabilidades, cuidados, maior atenção à vida, às experiências, aos exemplos, aos dramas, às desilusões, às conquistas, as frustrações. Se traçar objetivos não era fácil, menos ainda, alcança-los. Mas era a vida, cheia de caminhos e poções. Mulher que se tornara, sentiria outras sensações. Passaria de protegida a protetora, sem perder a proteção de sempre. Descobriu que em si, nascia uma nova vida. Tudo seria exatamente igual ao que foi até então, com suas nuances particulares, com experiências ímpares, mas a vida repetia um ciclo.

Como mãe, seria outra mulher. Aprenderia tudo a seu modo. Valorizaria mais os cuidados maternos. Sentiria a emoção de carregar em si, uma vida, era um novo ciclo. Cuidaria dos mínimos detalhes: quarto, roupas, nome, saúde… abdicaria das próprias preferências para não prejudicar aquele feto em crescimento. A vida se repetindo, sem que nada seja igual. Cuidados, trabalho, preocupações, alegrias, sorrisos, choro… o primeiro contato com uma “nova vida”.

De cuidada, a cuidadora, vai vivenciar “tudo o que passou”, observando, orientando, servindo de exemplo, se esforçando, inclusive, para ser o melhor exemplo. As dores, as conquistas, os amores… quer sempre oferecer o melhor, está sempre do lado, mesmo quando não precise, ainda que peçam pra não estar… exatamente como foi consigo, outrora. Mas agora, a vida tinha outro sentido.

Passado o tempo, agora via nascer da vida que gerou, uma outra vida, uma nova geração para a qual iria contar suas histórias e mimar e quem sabe ter o privilégio de ver d’ali nascer um novo ser, que iria amar do mesmo jeito que foi amada, que amou seu primeiro filho, porque o amor não fica maior ou menor com o passar dos anos, vai ganhando nova compreensão, outras nuances. Com o transcorrer do tempo, que não para a nos esperar, vai lembrar de tudo, se orgulhar do que viveu e agradecer como nunca.

 

(Professor Emerson Lima, Crônica ao dia das mulheres, 08 de março de 2019)        

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